sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Reitoria da USP expulsa 6 alunos ligados ao movimento estudantil

A expulsão de Aline Dias Camoles , Amanda Freire de Sousa , Bruno Belém , Jéssica de Abreu Trinca , Marcus Padraic Dunne , Paulo Henrique Oliveira Galego , Pedro Luiz Damião e Yves de Carvalho Souzedo é algo inaceitável e não podemos deixar isso barato não. Isso merece uma resposta de âmbito nacional, uma mobilização de todo o país já. BASTA!  NÃO À EXPULSÃO DOS ESTUDANTES! FORA RODAS! MAIS VAGAS NO CRUSP JÁ! FORA NEOLIBERAIS CANALHAS!
Abaixo o despacho publicado no diário oficial do estado de São Paulo:


SÁBADO 17 DE DICIEMBRE DE 2011

Rodas expulsa 6 estudantes da USP

Em despacho divulgado hoje no Diário Oficial do Estado de SP, o Reitor João Grandino Rodas decidiu expulsar 4 estudantes da USP moradores do CRUSP por conta da ocupação da sede da COSEAS (Moradia Retomada). As expulsões estão baseadas no decreto de 72, da ditadura militar, ainda vigente no Regimento Geral da USP, que permite perseguições e penalidades políticas.
Leia a seguir um trecho do Despacho divulgado hoje:
http://www.jusbrasil.com.br/diarios/33295639/dosp-executivo-caderno-1-17-12-2011-pg-63
REITORIA
Despacho do Reitor, 16-12-2011
  1. Considerando que a ?Universidade reconhece (...) que penalidades eventualmente sugeridas por (...) comissões relativamente aos atos praticados por docentes, servidorestécnicoadministrativos e discentes, deverão ser aplicadas de acordo com a maior ou menor gravidade dos mesmos em cada caso e após sua efetiva comprovação nos autos.
  O poder disciplinar fundamenta-se na própria Constituição Federal (art. 5º, LV), sendo detalhado em leis que regem a administração pública, seja na esfera federal, seja na esfera estadual. Citem-se, como exemplos: Lei Federal 8.112/1990 (art. 143), Lei Estadual paulista 10.261/1968.
Dessa maneira, mesmo que, por hipótese, não houvesse, nas normas internas da USP, qualquer referência ao poder disciplinar, o dirigente dessa Universidade não teria como não observá-lo, sob pena de responsabilidade.
  Com relação às regras sobre penalidades, constantes das normas internas da USP, lembre-se que, em 1990, por solicitação do corpo discente, deixou-se de revê-las, conforme atas das Comissões e do Conselho Universitário. Assim, as normas disciplinares do Regimento Geral da USP, de 1972, em vigor por força do art. 4º das disposições transitórias do Regimento Geral, atualmente vigente, foram recepcionadas pela Constituição Federal de 1988.?
2. Considerando bem fundamentadas as conclusões alcançadas pela d. Comissão Processante, expressas no Relatório Final de fls. 512 a 540 do Processo USP nº 10.1.5910.35.0, que observou os Princípios Constitucionais da Ampla Defesa e do Contraditório, consectários do devido processo legal, bem como os Princípios da Legalidade, Moralidade e Impessoalidade, dentre outros que regem as atividades da Administração Pública, acolho, integralmente, o Relatório ofertado, passando a fazer parte integrante do presente.
3. Assim, oportuna a adoção das penalidades sugeridas, sendo pertinente observar, ainda, o desrespeito, dos denunciados, às normas constantes no Código de Ética da Universidade de São Paulo, baixado pela Resolução nº 4871, de 22 de outubro de 2001, notadamente os artigos 5º, I, 6º, I, 21 e 22.
4. Tendo em vista o respaldo de, praticamente, a totalidade dos dirigentes das Unidades de Ensino e Pesquisa e Órgãos Centrais, expresso em documento datado de 13.12.2011.
5. Desta forma, determino a aplicação a Aline Dias Camoles (ECA), Amanda Freire de Sousa (FFLCH), Bruno Belém (ECA), Jéssica de Abreu Trinca (FFLCH), Marcus Padraic Dunne (FFLCH), Paulo Henrique Oliveira Galego (FFLCH), Pedro Luiz Damião (FFLCH) e Yves de Carvalho Souzedo (FFLCH) da pena de eliminação do corpo discente da Universidade de São Paulo, com fundamento no artigo 249, IV, do Decreto nº 52.906/72 (em vigor por força do disposto no artigo 4º das disposições transitórias do atual Regimento Geral da USP), e, como consequência, a exclusão dos mesmos do CRUSP/COSEAS.
6. Deixa-se de executar a penalidade aplicada a Paulo Henrique Oliveira Galego, por não mais pertencer, este, ao corpo discente da Universidade de São Paulo, bem como a Pedro Luiz Damião, tendo em vista que referido Senhor concluiu o Curso no qual estava matriculado, devendo constar as anotações da penalidade em seus prontuários.
7. Com relação a Marcio Barbosa da Silva (EP), Cássio Eduardo Nunes Domingos Aguiar (FFLCH), Thiago dos Santos Molina (FE), Valéria Alves de Souza (FFLCH) e Vanderson Cristiano de Sousa (FFLCH e IB), tendo em vista a ausência de provas cabais que possam levar à conclusão de terem praticado os atos lesivos que lhes foram imputados, determina-se, quanto a estes, o arquivamento do procedimento.
(Processo USP nº 10.1.5910.35.0 - Interessada: Coordenadoria de Assistência Social).

Revogação das expulsões dos estudantes da USP Já !



Declaração da reunião setorial de docentes da FFLCH de 20 de dezembro de 2011
A assembleia setorial dos professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas se reuniu por convocação da nossa representação na associação docente, para tratar da expulsão de seis alunos da Universidade praticada por despacho do reitor no dia 16 de dezembro de 2011 em relação a processo aberto em consequência da ocupação de um prédio da COSEAS em 2010 (processo de número 2010.1.713.35.1).
Durante a reunião, avaliou-se a informação divulgada pela Reitoria sobre a expulsão, ouviu-se o relato de um dos alunos expulsos, bem como retomaram-se informações anteriores apresentadas em 2010 durante a discussão sobre esse processo na Congregação e em departamentos da nossa Faculdade a cujo quadro pertencem vários dos alunos expulsos.
Depois da troca de ideias e informações, concordamos nas seguintes apreciações, que trazemos a público:
1) Há fortes indícios de inconsistências nos procedimentos da administração central, de parte da qual também não se registraram, ao longo dos meses decorridos desde a ocupação da COSEAS, iniciativas com o real propósito de estabelecimento de diálogo e busca de negociação.
2) A penalidade aplicada tem caráter de perpetuidade, o que torna mais inadmissível ainda a falta de transparência em vários aspectos do procedimento, bem como a falta de resposta, por parte da Reitoria, aos muitos questionamentos que esse e outros processos embasados no entulho autoritário que o Regimento da USP de 1990 herdou do decreto 52906 de 1972 têm recebido por diversos setores da Universidade, inclusive várias congregações.
3) O despacho do reitor inclui, entre seus fundamentos, ter em vista o respaldo da maioria dos diretores de unidades de ensino e pesquisa, mediante um documento produzido dias antes. Além de esse documento não ter sido divulgado, é de se estranhar que apareça como fundamento de uma penalidade a obtenção de maioria em um conjunto, o dos diretores, que não é nem poderia ser tribunal de julgamento, ainda menos se considerada sua relação institucional com uma das partes. Que esse fundamento tente aplicar-se a uma medida extremadamente grave e sem precedentes é forte indício da motivação política da mesma e sugere um alarmante cenário institucional de falta de garantias.
4) Os protagonistas do movimento denominado “Moradia Retomada” não realizaram, ao longo dos meses do processo, uma ação de esclarecimento junto aos setores representativos de estudantes, funcionários e docentes que informasse com transparência sobre cada um dos passos e decisões do movimento em relação ao espaço ocupado e seus objetos, esclarecimento absolutamente necessário para um coletivo, cujos protagonistas estavam sofrendo processos administrativos.
Pelo exposto, consideramos:
a) que as expulsões devem ser imediatamente revogadas para a revisão completa do processo;
b) que, como tem sido objeto de inúmeras exigências de colegiados e setores representativos da Universidade, o entulho do decreto 52906/72 deve ser definitivamente retirado do Regimento da USP e substituído por um código disciplinar acorde com a Constituição Federal.
c) que o movimento da “Moradia Retomada” deve realizar uma clara divulgação de todas as ações realizadas no momento da ocupação, muito especialmente no tocante à documentação e ao patrimônio existente no prédio. A gravidade da situação, que afeta severamente a vida acadêmica e profissional dos alunos expulsos, requer a mais absoluta transparência a respeito.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Estudante da USP torturada dentro do campus por PM's

Rosi conta como foi torturada na USP

por ALCEU LUÍS CASTILHO (http://alceucastilho.blogspot.com/)

Rosi não estava na reitoria naquela madrugada. Uma semana após a ocupação do prédio da Cidade Universitária pelos estudantes, ela cedera a barraca para um casal de amigos que visitava a ocupação. Dormiu no conjunto residencial dos estudantes, o Crusp, a poucos metros da reitoria. Mas isso não a impediu de ser presa, após uma decisão judicial que determinou a reintegração de posse do prédio.

A estudante de 25 anos, nascida no Paraná, foi uma das 73 pessoas detidas por um aparato de 400 policiais – da Tropa de Choque e da Cavalaria (PM), do Grupo de Operações Especiais (GOE) e do Grupo de Ações Táticas Especiais. Era o dia 6 de novembro, quase manhã de terça-feira. Profissionais de imprensa, informados da ação, acompanhavam a movimentação policial antes mesmo de os estudantes perceberem o cerco ao prédio.

Vários helicópteros (só um da PM) sobrevoavam o local. Rosi acordou assustada com o barulho e com a luz. A janela de seu quarto estava iluminada, mas ainda estava escuro. Ela desceu e foi ao prédio da reitoria. “Lá embaixo, os PMs impediam as pessoas de sair, inclusive as que tinham que ir trabalhar”, conta a estudante de Filosofia – hoje no terceiro ano da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Humanas, a FFLCH.

O Crusp também foi atacado. A polícia jogou uma bomba de gás lacrimogêneo (o que pode ser visto neste vídeo) nos corredores da moradia estudantil e reprimiu repórteres do Jornal do Campus, o jornal-laboratório do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). Uma repórter tentou registrar imagens, mas não teve a mesma liberdade que veículos da grande imprensa.

- Chegando próximo à reitoria, eu comecei a tirar fotos em frente do cordão de isolamento da polícia, para registrar o que acontecia. Havia barulho de coisas sendo jogadas, quebradas. Nisso apareceu um policial por trás de mim, apontando uma arma de grosso calibre. Eu fiquei paralisada. Na minha frente estava o cordão de isolamento. Atrás, um cara armado.

Exatamente esse policial se aproximou de Rosi, pegou em seus braços, disse a ela que estava detida e a mandou deitar no chão.

- Chegaram mais dois PMs, que já me jogaram no chão para me imobilizar. Comecei a gritar, já que eu não estava lá dentro e eles não tinham justificativa legal para me deter. Eu só estava filmando! Foi quando um deles falou: “É melhor levá-la pra dentro”.

DENTRO DO PRÉDIO

A estudante (de 1m 59 e 60 kg) conta que, na delegacia, falaram que ela foi presa por ter tentado entrar na reitoria. “Como eu vou entrar em um lugar cheio de polícia, passando pelo cordão de isolamento?”, questiona.

Rosi foi levada para a frente da reitoria - arrastada. Ela conta que os policiais quebraram o vidro e entraram. Era uma sala escura. Não havia nenhum aluno. Só policiais. Homens. “Alguns estavam mascarados”, conta, “com pano embaixo do capacete”.

- Lá, me colocaram de pé e me mandaram deitar no chão. Como eu não fiz imediatamente o que me pediram, porque eu estava em estado de choque, eles chutaram minha perna, que ficou roxa.

Após levar o chute na perna, Rosi foi atirada ao chão, de bruços.

- Quando me jogaram no chão, um homem sentou nas minhas pernas, próximo ao meu bumbum. Outros dois sentaram no meu tronco, pressionando meu corpo no chão com o joelho. Havia vários policiais em volta, fazendo uma roda. É que, como eles estavam ao lado do vidro, se alguém estivesse passando pro ali poderia ver.

A única visão que a estudante tinha era das botas. A sala estava toda escura. Ela calcula que havia uns 12 homens ali, “todos para imobilizar uma mulher”. Falaram a ela que iam levá-la presa e botaram um lacre em suas mãos. “Também pegaram minha câmera, roubaram o cartão de memória e a quebraram”. Eram aqueles lacres de plástico, com buraquinhos. “Provavelmente não tinham algemas para prender todo mundo”.

A TÉCNICA DO “PORCO”

A partir daí começou um período marcado pelo que ela chama de “requintes de tortura”. Os relatos chocaram os advogados que estão cuidando do caso:

- Nesse momento os policiais apertaram meu pescoço e taparam minha boca e meu nariz. Sou asmática. Quase desmaiei. Eles são sádicos, riam de mim, falavam que eu não ia sair dali. Eu gritava de dor e batia as mãos no chão, e eles falavam: “Você está pedindo arrego?”.

Ela pensava que ia morrer. “Em vários momentos achei que fosse morrer, principalmente por falta de ar, asfixiada. Que iam alegar que eu morri no meio do movimento. Eles não pouparam esforços. Era um clima de criar terrorismo”.

Rosi não conseguiu falar nada. E, mesmo assim:

- Um deles pegou na minha nuca, bateu várias vezes minha cabeça no chão, na parte do couro cabeludo, para não deixar hematoma. Eu tentava respirar e não conseguia. Aí mordi a mão do PM que tapava minha boca e nariz. Quando fiz isso, eles me falaram: “Ah, então você quer conhecer o porco, você conhece o porco?”.

O porco era uma espécie de bolacha de plástico, um material muito resistente que enfiaram em sua boca. Era um objeto achatado, conta com detalhes a estudante, que a impedia de falar e de respirar pela boca. “Um típico instrumento de tortura, até porque eu tenho dificuldade de respirar pelo nariz”.

Ela ficou com o tal “porco” na boca enquanto eles recomendavam: “É melhor ficar quieta, senão vai ser pior”. Enquanto isso, puxavam sem cessar seu braço para trás, ao mesmo tempo em que pressionavam ainda mais seu corpo contra o chão.

- Pensei que não havia mais ninguém lá dentro, que todo mundo já havia sido retirado e que iam fazer o que quisessem comigo. Depois eu soube que tinha uma sala ao lado, onde as meninas ouviram tudo o que aconteceu ali, elas são testemunhas. Onde eu estava não tinha uma mulher, ninguém.

Após vários minutos nessa situação, prenderam Rosi com um lacre, com as mãos pra trás. Apertaram muito forte e a levantaram do chão - pelos cabelos. Somente então retiraram o “porco” de sua boca e a levaram pra outro lugar, mais iluminado.

NA MIRA DA IMPRENSA

A iluminação revelaria as marcas da tortura. Com dor no braço, viu que ele estava roxo. E reclamou de dor. Ela faria muito mais tarde o exame de corpo de delito, obrigatório para os 73 estudantes detidos – somente 21 horas após a reintegração de posse.

- Os PMs me arrastaram para um corredor iluminado. Reclamei que meu braço doía muito. Eles olharam e falaram que realmente estava muito apertado. Pegaram uma faca enorme, pediram pra eu ficar quieta, para não cortarem meu braço, e cortaram o lacre.

Nesse momento começava outra luta de Rosi: contra a indiferença de imprensa que cobria os eventos na USP. Os dias anteriores tinham sido marcados por conflitos entre os estudantes e repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Havia provocações de ambos os lados. Do lado da imprensa, a ofensa recorrente era a de que todos eram “maconheiros”. Os estudantes criticavam a imprensa “burguesa”, vendida – e nada independente.

- Nisso passou um repórter da Globo, o primeiro a chegar no local. Ele fez toda a cobertura da desocupação. Quando eu o vi achei que era minha salvação: comecei a gritar e falar o que estava acontecendo. Ele me olhou com o maior desprezo e passou direto. Estava mais preocupado em filmar a reitoria!

A estudante diz que a emissora fez um acordo de exclusividade com os policiais. “Não foi à toa que a Rede Globo foi a emissora que mais atacou o movimento”, teoriza.

Mesmo assim, conta ela, alguns cinegrafistas filmaram algumas cenas que lhe servem de provas. As imagens do Jornal Nacional mostram-na reclamando da mão machucada. “Mas não me colocaram falando o que tinha acontecido, a violência contra mim eles não colocaram”, reclama.

Diante da indiferença dos repórteres, um policial ainda falou para ela: “Viu, não adianta nada você reclamar!” E ordenou: “De pé. Fica de pé!”.

- Eu não conseguia ficar de pé, mas eles queriam que eu ficasse. Um PM pegou o cassetete e apertou contra a minha garganta pra eu ficar em pé, junto à parede. Minha garganta desde então está inflamada e estou rouca.

A CHEGADA DA POLICIAL

Foi quando chegou uma policial, loira. A estudante diz que pode identificá-la no processo. Até porque eram 25 mulheres presas entre 400 policiais – mas apenas três policiais mulheres. E, entre essas três, aquela era a única loira.

- Achei que ela fosse ter o mínimo de sensibilidade. Aí aproveitei para falar para o PM: “Você vai me bater de novo?”. Nisso ela chegou, tirou ele de lá e falou: “Ele não pode te bater, mas eu sou mulher e posso”. Pegou na minha blusa e me jogou duas vezes contra a parede. Reagi com o cotovelo e ela saiu.

Mas os policiais continuaram por ali.

- Eles continuaram em volta de mim. Essa loira veio em seguida com minha máquina dentro da caixinha. Pensei: “Olha, que gentileza”. Mas estava quebrada e sem o cartão. A policial ainda me falou: “Se você colaborar eu vou te levar junto das meninas, senão você vai ficar aqui com os meninos, viu?”.

‘SÓ UMA LOUCA GRITANDO”

Rosi foi levada para a sala, onde as demais 24 mulheres detidas estavam sentadas no chão, com vários policiais no recinto. Eles tapavam o vidro com escudos para que, do lado de fora, não pudessem vê-las. A quantidade de policiais era maior do que a de detidas.

Nesse momento a estudante ficou sabendo que, minutos antes, diante de seus gritos, os policiais diziam o seguinte às suas colegas, atemorizadas: “Não se preocupem com os gritos, é procedimento normal”. Outro policial deu uma explicação diferente: “Não é nada, só uma louca que entrou gritando”.

Pelo relato de suas colegas, Rosi ficou cerca de 30 minutos sozinha com o grupo de PMs – sem testemunhas diretas, sob a tutela do Estado.

- Ficamos horas nessa sala e começaram a me ligar. Eu atendi e disse que estava lá dentro. Contei que estava passando mal, que precisava da minha bombinha. Só nesse momento eles acreditaram que eu tinha asma. Vinte minutos depois trouxeram minha bombinha, que meu namorado levou. Depois me mandaram desligar o celular e ficamos incomunicáveis.

A estudante conta que havia vários policiais militares sem farda, à paisana, filmando os rostos de todos. “Todos eles estavam sem identificação, dentro e fora da reitoria”, afirma. Elas reclamaram desse detalhe, mas a policial loira perguntou: “O que você entende de Polícia Militar pra saber o que PM pode ou não pode?”.

“VOCÊ ESTAVA LÁ, VOCÊ ME AGREDIU”

No 91º Distrito Policial, na Vila Leopoldina, Rosi foi atendida por uma delegada.

- Tentei falar para ela o que aconteceu comigo, dizendo que eu nem estava na reitoria naquele momento. Ela me disse que o questionário partia do pressuposto de que eu estava lá dentro, e que não havia uma lacuna onde ela pudesse relatar o que queria falar.

Então a estudante resolveu ficar em silêncio - declarar somente em juízo. Quando saiu da delegacia deparou-se com um policial gordinho, de olhos azuis. Como algumas meninas estavam fumando, ele queria colocá-las logo dentro do ônibus.

- Questionamos isso e ele me disse: “É pra você acatar, que você conhece minha força”. Eu não aguentei e disse: “Então você estava lá, seu filho da puta, você me agrediu”. Depois disso ele desapareceu. Não o vi mais.

Orientada pelo advogado, Rosi diz que tentou registrar a agressão em um boletim de ocorrência, mas a delegada teria se negado a registrar. “E ela teve a pachorra de dizer depois, em entrevista, que nenhum estudante alegou ter sido agredido”.

Sobre o motivo do protesto político na reitoria, a estudante rejeita a ideia de que os estudantes estavam ali somente para defender o direito de fumar maconha:

- O que defendemos é o direito de ter uma universidade de fato pública e aberta, para que as pessoas não tenham suas bolsas revistadas ou apenas pelo fato de serem, por exemplo, negras. E policia na universidade põe em risco o direito mais elementar numa democracia, que é o de ir vir.

MEDO E INDIGNAÇÃO

A estudante ainda tem medo.

- Achei que ia sair incólume, mas tenho tido sonhos com polícia todas as noites. Nem que sejam breves. Eles me batendo, como remake, eles me parando, eu sendo revistada, amigos meus sendo abordados e eu assistindo. Vou tentar marcar uma psicóloga.

Ela diz que alguma coisa mudou em sua vida. Na USP, mudou até o jeito de andar. “Agora ando assustada, olhando para os lados. Não ando mais sozinha pelo campus. E as pessoas ficam olhando”. Por isso prefere ficar em casa. “Penso que pode ser um deles, que podem me reconhecer. Você acaba ficando com mania de perseguição”.

Rosi já trabalhou como babá, monitora escolar, bóia-fria, frentista de posto de gasolina, em fábricas, em telemarketing, no comércio. Hoje, é professora na rede pública estadual. Dá aulas de filosofia para crianças. “Quando eu voltei para a escola as crianças  falaram: ‘Eba, a professora foi solta!’”.

Ela nasceu no Sul. É filha de militante político (do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST). Morou em acampamentos, durante a infância, e isso lhe soava algo natural. Chegou à USP porque lhe parecia um lugar livre, “onde os jovens podiam pensar livremente”. “Era tudo engano”, diz.

Quando seu pai ficou sabendo do que aconteceu, queria levá-la de volta para o interior paranaense. “E lá eles tinham as notícias da Rede Globo e da Bandeirantes, que trataram a gente como criminosos”, conta. “Mas ele sabe como é isso”. No Crusp, ganhou a presença constante de seus companheiros de militância, de seu namorado e amigos, nesse momento solidários.
Rosi diz que sempre tive uma veia crítica. “Não sou xiita ou radical, apenas uma estudante que se indigna, que quer uma universidade que não seja só para ela. A USP pra mim foi um sonho, e eu queria que outras pessoas pudessem compartilhar isso”.

Militante do grupo trotskista Práxis - Socialismo ou Barbárie, ela considera-se “uma indignada”, que gosta de estudar, de fazer política e de morar no Crusp. Está mais resguardada, para não ser presa, mas já voltou a militar – nesta segunda-feira, compareceu à audiência pública sobre o tema na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

- Espero que eu não seja jubilada e possa prestar concurso para dar aula como professora efetiva. Não cometi nenhum crime, foram eles os criminosos, desejo não sofrer nenhuma represália, principalmente da própria universidade.

Ela reconhece que seu caso pode ajudar na luta de mulheres que sofrem violência. “Sem dúvida foi um abuso diante da minha condição de mulher. Se fosse um homem não seriam tão enfáticos”.

Mas não quer se considerar uma vítima, individualmente. “É todo um movimento”, define. “Não foi em vão. Ainda bem que o movimento está vivo e dando uma resposta a tudo o que aconteceu. Assim ganho força para falar”.

DIANTE DA IMPRENSA – PARTE 2

Duas semanas após a prisão em massa na reitoria, no dia 22, os estudantes da USP realizaram um ato no vão livre do Masp. Era uma “aula pública de democracia”, em resposta ao governador Geraldo Alckmin – para quem os estudantes é que deveriam ter aulas de democracia.

Em sua fala, Rosi tomou o microfone para protestar – com veemência - contra a mídia “podre" que, segundo ela, ignorou seu caso. “Eles não quiseram publicar minhas denúncias de tortura”, bradava. Ela diz que expôs o que a mídia não quis saber o que de fato aconteceu na USP - mas sim caluniar o movimento e seus participantes.

M
inutos após eu a procurei. Ela estava com seu namorado, calma, ambos abraçados, escutando os demais discursos. Apresentei-me e demonstrei interesse em publicar toda a história – conforme o seu relato. Peguei seu telefone e marcamos a entrevista.

Eu não fui o primeiro. Dias antes, Rosi dera entrevista a um repórter da Folha de S. Paulo. A transcrição do depoimento – gravado - foi a base do relato publicado na agência Carta Maior e (com vários adendos exclusivos) nesta entrevista.

Durante o depoimento à Folha, ela chorou. Foi o mais difícil. Agora está mais calma – e mais confiante por eu ser, além de jornalista, estudante da USP. Tanto que permitiu publicar seu nome - na Carta Maior, apareceu como Nadya.

A reportagem da Folha, porém, nunca foi publicada. “Seria importante sair num jornal de grande circulação. Mas não quiseram”.

Era contra a linha editorial.

domingo, 27 de novembro de 2011

Entrevista com Promotor Fernando Krebs: CELG e outras maracutaias e fraudes de Marconi Perillo

Por André Luiz e Miriam Moraes

Escândalos políticos em Goiás

O promotor Fernando Krebs, concedeu entrevista exclusiva a O Jornal de Goiás, onde fala sobre o andamento do caso Celg, as ligações entre Marconi Perillo e Delúbio Soares e denuncia a ação de desembargadores para impedir investigações, no que denomina como “escândalo nacional”.


Com seu estilo independente e determinado, Fernando Krebs conseguiu, em poucos anos de exercício da função em Goiás, imprimir uma nova dinâmica na ação na Defesa do Patrimônio Público mantendo-se incólume à pressão política, tão em voga no Estado.

O que o senhor pode adiantar sobre o andamento do caso Celg?


Fernando Krebs - No caso Celg, temos duas ações judiciais em andamento contra um advogado por contratos que poderia chegar a R$ 90 milhões ou R$ 100 milhões de reais. Atendendo a uma recomendação nossa, a Celg suspendeu o pagamento dos contratos de honorários, por contratação sem licitação, de gente que não é nenhum Oscar Niemeyer. Conseguimos a quebra do sigilo bancário, fiscal, bloqueio de bens, que acabou caindo devido a ações judiciais, mas estamos recorrendo junto ao STJ e acreditamos que isto será revertido. Temos também em andamento uma investigação contra a ação de outro advogado com dispensa de licitação por R$ 17 milhões, R$ 9 milhões em outro caso... Mas o mais estranho é que o próprio Tribunal nos proibiu de continuar a investigação, o que, a meu ver, é um escândalo nacional.

Sob que alegação o Tribunal proibiu essa investigação?


Fernando Krebs - Com base num Habeas Corpus impetrado pelo advogado contra nós. Houve uma concessão de liminar, concedida pelo desembargador Charife Oscar Abrão, por sinal, réu por improbidade administrativa pelo MP, por aplicar aproximadamente R$70 milhões no Banco Santos, um banco muito “sólido”. Houve essa liminar vetando a investigação do MP. Posteriormente, nós ganhamos a decisão, mas o juiz relator da época, substituindo o desembargador, nos proibiu qualquer ação enquanto não houvesse recurso e transitasse em julgado o Habeas Corpus, embora na época não houvesse nem recurso da defesa nesse sentido. Então, temos esse problema também. Não há duvidas de que a Celg, onde entra muito dinheiro todos os dias, é objeto de nossas investigações, porque temos que nos concentrar onde existem problemas. E a gente sabe que hoje a corrupção está na prestação de serviços, na publicidade e nas dispensas de licitação.


Na sua concepção, existe justificativa para que a Celg concedesse um patrocínio milionário a uma equipe de fórmula Indy, nos EUA?


Fernando Krebs - Nada justifica isso. Foi uma época em que eles queriam vender ações, não sei para quem, talvez para o Osama bin Laden, porque quem vai comprar ações da Celg, com seu passivo gigantesco? Só se for alguém muito louco. Repito: nada justifica isso. Na época eles alegaram que queriam vender ações, mas nunca venderam nenhuma, e nem por isso encerraram o contrato. E isso é até café pequeno perto dos contratos milionários de advogados, todos com dispensa de licitações. A Saneago também, está faltando água em todo o estado. Onde está o dinheiro dos investimentos para fornecer essa água? Se tivéssemos um tribunal de contas eficiente, um corpo técnico concursado, efetivo, moderado, e adaptado à Constituição, com certeza teríamos um apoio muito grande para as investigações e ações. O TCE não cumpre sua função constitucional e a única maneira de obrigá-lo a cumprir é fazendo com que ele venha a se adequar à Constituição.


Os deputados estaduais se queixam da falta de acesso a informações. Um exemplo disso foi a solicitação de uma listagem dos beneficiados pelo programa Cheque-moradia, onde havia denúncias de irregularidades. O que o Ministério Público pode fazer em tais casos?


Fernando Krebs - Temos meios de buscar esse dado junto à Secretaria da Fazenda, através do extrato da conta do Estado, inclusive confrontando aquilo que foi destinado, quando foi sacado, e quais foram os beneficiados. Basta que solicitem ao Ministério Público e poderemos intervir na solução. O cerceamento não é legítimo nem justificável, sob qualquer hipótese. Esses dados deveriam estar acessíveis, mas trata-se de um empecilho que pode ser contornado através do MP.


Os deputados de oposição têm recorrido ao MP a fim de sanar dificuldades e obstruções?


Fernando Krebs - Com pouca freqüência. Aliás, penso que a oposição deixa muito a desejar nesse aspecto, pois ela tem o espaço para buscar o MP que, inclusive agora conta com um número muito maior de promotores atuando na defesa do patrimônio publico. No entanto, sabemos da existência de hospitais que foram fechados por falta de recursos, outros não inaugurados, outros ainda com problemas estruturais, e tudo isso tem que ser investigado e os responsáveis responsabilizados. Em Goiás, a falta de medicamentos é fato corriqueiro, filas nos hospitais são corriqueiras, enquanto temos as promotorias para coibir. Mas para que isso aconteça, a oposição tem que cumprir seu papel, cobrar também do promotor e do MP a apuração, em tempo hábil, com rapidez... Tem que cobrar da chefia da instituição, de todos os setores encarregados de agir nestes casos.

E a que razão o senhor atribui esta falta de cobrança?


Fernando Krebs - Goiás como não tem a tradição histórica de uma oposição bem demarcada, bem definida. Aqui, o governo e a oposição são quase a mesma coisa, porque os limites são muito fluidos, gelatinosos, você não sabe quem é oposição e quem é governo. Algumas pessoas do governo são mais oposição do que governo, e a oposição muitas vezes é mais governo que oposição, e até mesmo mais governo que o próprio governo. É o resultado de gente que é eleito pelo PT e vai para o PMDB, de gente que queria ser líder de outros governos que não tem nada a ver com o partido político.


Então a decisão do STF de decretar que o cargo pertence ao partido, foi acertada, em sua opinião?

Fernando Krebs - A decisão foi ótima, foi muito boa. O STF fez o que os políticos não tinham coragem para fazer.

Quais as mudanças o senhor espera acontecer a partir da fidelidade partidária?


Fernando Krebs - Pelo menos reduzirá substancialmente a disputa interna, disputa que acontece entre os candidatos do próprio partido. Na verdade, a concorrência que acontece dentro e fora dos partidos, no processo eleitoral, é “um Deus nos acuda”, o fim do mundo, é uma guerra de foice no escuro, como se fosse uma luta tribal da idade das cavernas, não tem nenhum luta ideológica. São milhares de campanhas individuais tramitando no mesmo tempo e espaço. A fidelidade partidária tende a estabelecer um direcionamento ideológico fundamental.


A população vem se manifestando a favor do financiamento público de campanha, mas isto teria que ser aprovado pelo Congresso. O senhor acredita em mudanças consistentes sem esta aprovação?

Fernando Krebs - Não, não vai haver mudança. Até porque as pessoas têm um senso comum de que quem é honesto ou quem ganha dinheiro honestamente não meche com política. Tenho um aluno que diz o seguinte: “quem é competente e capacitado não se mete nisso, só os incompetentes, os incapacitados, e aqueles que não têm ética. Estes vão para a política. O resto, vai trabalhar como médico, advogado, engenheiro...”. Esta concepção está disseminada na sociedade, mas para mudar este cenário, o financiamento público é essencial, porque, a partir do momento em que houver financiamento público, outras pessoas se habilitariam para representar determinados segmentos ideológicos, sem ter que tirar dinheiro do próprio bolso, sem ser forçado a uma ruptura ética.
No filme “Tropa de Elite”, logo no começo, existe uma colocação de que o policial no Brasil, ou se corrompe, ou se omite, ou vai para a guerra, que é a realidade do Bope, da Rotam... Eu diria que isso pode ser ampliado para toda a sociedade brasileira: a maior parte se omitiu, outros se corromperam e poucos foram para a guerra. Eu considero que fui para a guerra, porque oportunidade de me corromper eu tive, e não sou omisso. Então, se eu não me encaixo em nenhuma das duas alternativas, o que resta é a terceira opção; mas fica difícil ir para a guerra porque a maior parte das pessoas se omitiram, e a sociedade brasileira, mesmo entre os sindicatos, entidades empresariais, enfim, quase todas estão omissas. Uma prova disso foi o referendo do desarmamento. O resultado acabou pegando todas as organizações de surpresa.

Mas houve um marketing eficiente pela manutenção do direito de porte...

Fernando Krebs -... Mas não foi só isso. A criminalidade e violência que o “Tropa de Elite” mostra, já existia ontem, já existia antes de ontem, ela não é novidade, está assim há muito tempo. E o que o governo propunha?! Era algo como “Vou desarmar o bom samaritano e vou manter o tarado armado”. Então o povo respondeu da seguinte maneira: “Eu não sou bobo, posso ter cara de bobo, jeito de bobo, mais não sou bobo”. Foi isso que aconteceu. Se as eleições fossem por tema, se a gente fosse levar a um plebiscito a Reforma Política, ela com certeza seria aprovada, porque acabaria o espaço para o uso da máquina do governo para a compra de votos, e porque seria uma eleição sem interesse pessoal. Pouquíssimos parlamentares se posicionaram a respeito do referendo, a maioria não se posicionou, eles se abstiveram porque eles não têm ideologia, não têm compromisso com nada, nem com ninguém, nem com coisa alguma, a não ser que seja com seus interesses pessoais, e como o interesse pessoal dele não estava em jogo, tratava-se apenas do interesse público, eles se omitiram, como se omitem historicamente e como estão se omitindo hoje.


A Lei da Responsabilidade Fiscal foi aprovada em 2000, mas até o presente momento não se vê punição. Posso citar um exemplo: Quando Marconi Perillo ainda era deputado estadual, foi acusado de pedir propina para intermediar verbas para uma escola em Jataí. No entanto o processo está a anos tramitando de um lugar para outro, assim como outros que se acumularam ao longo dos oito anos de mandato como governador. A destinação de recursos para a educação, para a saúde, nada foi cumprido. No entanto, hoje ele exerce seu mandato no Senado Federal. Por que tais processos não encontram desfecho?


Fernando Krebs - A questão da responsabilidade fiscal avançou pouco. Ela ainda é utilizada quando interessa ao governo e ignorada quando não é de seu interesse. E a questão da morosidade nos processos é um grande complicador, porque a justiça é morosa, muitas vezes ineficiente, tem pouca ou nenhuma independência, e está muito atrelada ao poder político. Veja que o Presidente da Republica escolhe os onze ministros do Supremo e o Senado apenas homologa. O atual presidente escolheu sete dos onze ministros e fez a maioria absoluta. Quando isso ocorreu nos Estados Unidos, há mais de cem anos, a Suprema Corte impediu que o presidente americano indicasse a maioria absoluta, porque isso violaria o principio da separação de poderes. Passados cem anos, ocorreu no Brasil e ninguém se manifestou sobre. E em Goiás e nos estados, a força do governador é muito grande, sobretudo quando ele é reeleito. Sou radicalmente contra a reeleição porque ela favorece muito o governante, consolida aquele poder. O primeiro mandato é diferente, mas no segundo, o governante fica muito forte. O Lula também está muito forte, absoluto, e se ele fosse candidato no terceiro mandato, seria reeleito tranquilamente. Isso foi um tiro no pé dos Tucanos, que aprovaram a reeleição a favor do Fernando Henrique mas gostariam que o Lula não tivesse o mesmo direito. Já nos estados, o governante comanda a Assembléia e, por sua vez, o próprio Tribunal de Contas. E o próprio Marconi, quando era deputado, defendia que houvesse concurso para conselheiro, e concordo integralmente com a idéia. Deveria haver concurso para conselheiro dos Tribunais de Contas do Estado e Município, mas depois de eleito, Marconi nunca voltou a tocar no assunto. Infelizmente é uma concepção política, o governo controla a Assembléia que não exerce o papel de fiscalização, e os Tribunais de Contas que deveriam auxiliar no trabalho de fiscalização, acabam também não o fazendo o seu papel. No entanto, se eles funcionassem bem, os níveis de corrupção no Brasil seriam completamente diferentes do que são hoje.


Mas existem membros do MP inclusive dentro dos Tribunais. Se o representante do MP acompanha os fatos, vê que não existe um sistema aberto e que não existe prestação de contas com critérios adequados, ele não deveria interferir e exigir que o órgão cumpra a sua função?


Fernando Krebs - Esse Ministério Público que existe dentro do Tribunal de Contas não é um MP tradicional, mas o federal estadual, e é extremamente leve. É um fiscal da lei, mas não tem poder para processar ninguém. O que os nossos colegas de lá têm feito é entrar em contato conosco e nos passar muita coisa, muitas informações.


Existe algo que pode ser feito para as instituições de Goiás retomem suas funções?


Fernando Krebs - O próprio cidadão pode cobrar do TCE transparência nas informações, e a oposição precisa agir de forma concreta, porque está deixando muito a desejar. Não é uma oposição como a dos outros estados. Veja a Assembléia de São Paulo, que conseguiu a abertura de mais de 70 CPIs. Goiás, nos últimos anos abriu apenas duas, pediram quatro, mas não passaram. Mas os deputados de oposição precisam ir atrás dos meios para exercer o seu papel.
O MP está sempre à disposição e todos sabem disso, principalmente à disposição dos parlamentares. Inclusive, uma dessas ações contra contratos de advogados com honorários milionários, no caso Celg, é resultado de uma representação de dois parlamentares da oposição. Existem várias outras representações, denúncias em off, não só de parlamentares como também da sociedade e até de pessoas que são ligadas ao governo. Porque o governo hoje não é um só. O estado hoje tem “dois governos” um denunciando o outro. Portanto, a oposição precisa se posicionar com maior determinação.

Qual o papel da imprensa nesse processo?


Fernando Krebs - A imprensa de Goiás, na verdade é a imprensa do governo. Ela é amplamente submissa e na hora de denunciar a corrupção, acaba obedecendo ao governo. Observe que nos jornais, as denúncias nunca aparecem na página principal. A pagina principal é sempre sobre a seca ou morte de alguém, homicídios e aspectos de trânsito, mas nunca corrupção.


Houve indícios de envolvimento de Delúbio Soares com Marconi Perillo, quando era governador. Esta questão foi esclarecida?


Fernando Krebs - No depoimento de Delúbio Soares, ele afirmou ter prestados serviços ao governo de Goiás. Nós suspendemos o procedimento porque o governo ainda não exonerou o Delúbio, ele continua sendo um funcionário público do Estado de Goiás. Continua sendo professor e recebendo o salário.


A população sabe, todo mundo sabe. O que falta acontecer para que alguma medida seja tomada?


Fernando Krebs - A sociedade precisa se indignar, se revoltar, se levantar, dizer não, dar um basta nisso tudo. Precisa se rebelar contra os corruptos, se manifestar, colocar adesivos nos carros... A população está muito apática. São poucos os que se levantam contra este abuso. E para haver mudanças, tem que haver envolvimento da população.

ATO CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO GUARANI-KAIOWA


domingo, 20 de novembro de 2011

Massacre e Barbárie contra índios Kaiowá Guarani do Brasil


http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=5953&action=read

Comunidade Kaiowá Guarani sofre massacre na manhã desta sexta-feira (18)

Inserido por: Administrador em 18/11/2011.
Fonte da notícia: Cimi - Assessoria de Imprensa
Renato Santana
De Brasília
 
No início da manhã desta sexta-feira (18), por volta das 6h30, a comunidade Kaiowá Guarani do acampamento Tekoha Guaviry, município de Amambaí, Mato Grosso do Sul, sofreu ataque de 42 pistoleiros fortemente armados.
 
O massacre teve como alvo o cacique Nísio Gomes, 59 anos, (centro da foto) executado com tiros de calibre 12. Depois de morto, o corpo do indígena foi levado pelos pistoleiros – prática vista em outros massacres cometidos contra os Kaiowá Guarani no MS.  
 
As informações são preliminares e transmitidas por integrantes da comunidade – em estado de choque. Devido ao nervosismo, não se sabe se além de Nísio outros indígenas foram mortos. Os relatos dão conta de que os pistoleiros sequestraram mais dois jovens e uma criança; por outro lado, apontam também para o assassinato de uma mulher e uma criança.  
 
“Estavam todos de máscaras, com jaquetas escuras. Chegaram ao acampamento e pediram para todos irem para o chão. Portavam armas calibre 12”, disse um indígena da comunidade que presenciou o ataque e terá sua identidade preservada por motivos de segurança.
 
Conforme relato do indígena, o cacique foi executado com tiros na cabeça, no peito, nos braços e nas pernas. “Chegaram para matar nosso cacique”, afirmou. O filho de Nísio tentou impedir o assassinato do pai, segundo o indígena, e se atirou sobre um dos pistoleiros. Bateram no rapaz, mas ele não desistiu. Só o pararam com um tiro de borracha no peito.
 
Na frente do filho, executaram o pai. Cerca de dez indígenas permaneceram no acampamento. O restante fugiu para o mato e só se sabe de um rapaz ferido pelos tiros de borracha – disparados contra quem resistiu e contra quem estava atirado ao chão por ordem dos pistoleiros. Este não é o primeiro ataque sofrido pela comunidade, composta por cerca de 60 Kaiowá Guarani.  
 
Decisão é de permanecer
 
Desde o dia 1º deste mês os indígenas ocupam um pedaço de terra entre as fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde – instaladas em Território Indígena de ocupação tradicional dos Kaiowá.
 
A ação dos pistoleiros foi respaldada por cerca de uma dezena de caminhonetes – marcas Hilux e S-10 nas cores preta, vermelha e verde. Na caçamba de uma delas o corpo do cacique Nísio foi levado, bem como os outros sequestrados, estejam mortos ou vivos.
 
“O povo continua no acampamento, nós vamos morrer tudo aqui mesmo. Não vamos sair do nosso tekoha”, afirmou o indígena. Ele disse ainda que a comunidade deseja enterrar o cacique na terra pela qual a liderança lutou a vida inteira. “Ele está morto. Não é possível que tenha sobrevivido com tiros na cabeça e por todo o corpo”, lamentou.
 
A comunidade vivia na beira de uma Rodovia Estadual antes da ocupação do pedaço de terra no tekoha Kaiowá. O acampamento atacado fica na estrada entre os municípios de Amambaí e Ponta Porã, perto da fronteira entre Brasil e Paraguai.   

GREVE DA UNIR: Professores, alunos e funcionários pedem socorro


Entrevista com Prof. Estêvão Fernandes sobre a Greve da UNIR


“Aliás, faço aqui um apelo a imprensa, organizações não governamentais, centros acadêmicos, institutos, faculdades, sociedade civil organizada, DCEs e instituições cientificas: por favor, nos ajudem.” Por Passa Palavra
unir011Passa Palavra (PP): Quais as principais reivindicações que motivam esta greve?
Estêvão Fernandes (EF): Hoje o que se pede é a saída imediata do atual reitor, para que se possa investigar devidamente as denúncias de irregularidades em sua gestão.
PP: Como se deu o processo de construção desta mobilização?
EF: Na minha opinião, esta foi a beleza de toda a coisa. Alguns alunos isoladamente foram se mobilizando para buscar melhorias em nossa universidade. Há um laudo recente do corpo de bombeiros (disponível para leitura online) que retrata bem o estado de abandono de nosso campus em Porto Velho. O mesmo pode ser dito com relação a maioria dos campi do interior. Enfim, os alunos foram se mobilizando, buscando melhores condições de estudo, aumento no número de professores e demandas básicas como água para dar descargas nos banheiros, iluminação no campus à noite,… Os alunos puxaram esse movimento por melhoria aos poucos e, de repente, o movimento havia crescido exponencialmente. Os professores acabaram aderindo, já que também sentimos na pele o que eles sentem. Os professores, pela manhã, decidiram em assembleia paralisar suas atividades. À tarde, foi a vez dos estudantes. Seja como for, foi entregue uma pauta de melhorias ao reitor que, em resposta, disse que 95% das exigências do movimento já haviam sido atendidas. A partir daí, cessaram todas as possibilidades de diálogo, as denúncias de desvios e desmandos foram surgindo e culminaram em um dossiê de 1.500 páginas com provas de irregularidades na universidade. Nesse meio tempo, os alunos ocuparam a reitoria, não como forma de vandalismo ou mero protesto, mas sim para salvaguardar os documentos que lá se encontram, evitando assim que eventuais provas sejam destruídas ou removidas. Depois disso uma comissão de alunos e professores grevistas foi ao MEC e a Casa Civil e ouviu tanto lá quanto cá, de forma oficiosa, que nada haveria a ser feito, dado que nosso reitor é aliado e amigo pessoal do atual presidente do PMDB e sua esposa, senadora e deputada federal por Rondônia, respectivamente. O MEC instaurou uma comissão de sindicância, indo de encontro ao que os grevistas pediam: o afastamento do reitor enquanto as investigações prosseguissem, já que provas peremptórias haviam sido entregues, não apenas denúncias ou indícios. De lá pra cá os ânimos se acirraram, com perseguições e coação a alunos e professores. Vários de nós têm buscado dormir em casas de amigos, alunos estão com medo, recebemos um bilhete dizendo que em breve alguns de nós – eu, inclusive – logo desceríamos na enchente do rio: uma clara referência ao hábito de se desovar cadáveres no rio Madeira. Ainda nesta semana a aluna que foi ao MEC, junto com a comissão, e que tem sido seguida pela cidade, recebeu a “visita” de homens encapuzados em sua casa que lhe disseram “Você vai morrer”… Além disso, tivemos um professor preso, enquanto chupava um pirulito na reitoria da Universidade – as imagens estão disponíveis na internet; um deputado federal agredido nesta mesma ação, pela Polícia Federal e, mais recentemente, dois alunos foram presos com panfletos, pela PF. É importante que se diga, aliás, que o único motivo pelo qual os professores estão se revezando e dormindo ao relento, na porta da reitoria da Universidade, é para salvaguardar a segurança física dos alunos que lá dentro se encontram.
greve-unir3PP: Internamente à UNIR, quais setores aderem e ajudam a manter o movimento?
EF: Muita gente tem medo de perseguição mas pode se dizer, de um modo geral, que praticamente todos os alunos e professores aderiram. Pela forma como o movimento nasceu e em resposta às ações truculentas e às ameaças a coisa acabou se massificando.
PP: Qual a relação do movimento com a população local? Como ela recebe ou participa da mobilização?
EF: Completamente. Tem sido comum vermos pela cidade de Porto Velho carros com os vidros pintados com os dizeres “Eu apoio a greve da Unir”. Acabou se transformando em um movimento pela ética e pela qualidade do ensino, mais do que algo contra um reitor específico. É uma mudança que se pretende estrutural, não apenas conjuntural, e a população entendeu isso e apoia o movimento. Como não haveria de apoiar, vendo os alunos dormindo em um prédio cuja água e luz foram cortadas pelo reitor e vendo os professores dormindo ao relento para proteger seu alunos?! Depois de ver professores sendo levados a um presídio comum por policiais a paisana com pistola em punho.
reiunirPP: Conforme se lê nos comunicados da greve, as forças políticas contrárias ao movimento têm adotado métodos de repressão escandalosos. Em sua opinião, quais são os setores políticos mais interessados em coibir o movimento?
EF: Prefiro não falar muito sobre isso, ao menos não mais do que eu já disse antes, mas sugiro fortemente a leitura do blog dos grevistas: http://comandodegreveunir.blogspot.com
PP: Além do explícito objetivo de manutenção da ordem, do seu ponto de vista, haveria alguma motivação especial para o uso de tão elevado grau de violência por parte do Estado e de outros grupos informais?
EF: Sim, claro que sim! A greve é uma greve por princípios: morais, democráticos e pela liberdade de expressão. A repressão forte ao movimento nos diz não apenas como esses princípios são tratados na amazônia brasileira mas, sobretudo, o estado de abandono e rendição que é imposto às instituições de ensino na amazônia. Como assim, professores e alunos são presos, apanham, são ameaçados, porque querem um restaurante universitário, um hospital universitário (cuja verba já está disponivel, diga-se), um colegio de aplicação? Apanhamos, somos presos e ameaçados pela completa ausência do Estado ou, pior, de um estado que vendeu sua dignidade em nome de uma pretensa governabilidade… mas, a quê preço?!
PP: Frente a isso, que tipo de cuidado os militantes têm tomado?
unir_greve2EF: Além dos que já mencionei (dormir em casa de amigos ou conhecidos), as pessoas tem mudado um pouco a rotina, pegando caminhos diferentes dos que pega diariamente, trocando de carro no meio do persurso para casa, andando em grupo… Depois que recebemos o bilhete ameaçando nossas vidas, fomos à Polícia Civil, Polícia Federal e Ministério Público. Além disso, uma forma fundamental de nos resguardarmos tem sido o uso da internet e das redes sociais. Uma vez que as pessoas fora de Rondônia saibam o que tem acontecido por aqui, nossa esperança é de que o poder público finalmente se faça presente por aqui e que possamos andar na rua sem ter medo. No interior, por exemplo, o carro de um professor foi atingido em movimento por um motociclista que quebrou o vidro de seu carro com um tijolo, no qual estava um bilhete com os dizeres “o próximo vai ser na sua cara, seu filho de uma vadia”…
logistas_apoiam_a_greve_estudantil_na_unir1PP: Quais entidades, grupos ou organizações, dentro ou fora de Rondônia, têm demonstrado apoio e preocupação com a situação de vocês? Este apoio tem sido o suficiente?
EF: Todo o apoio que temos recebido (a lista está no blog do comando de greve, mencionado acima) tem nos ajudado a persistir na luta. O que mais nos preocupa é a invisibilidade de nossa crise no cenário nacional, e as notas de apoio nos dão fôlego, mostram que, afinal, os moinhos de vento não são assim tão assustadores e que não estamos sozinhos. Entretanto, numa situação dessas, todo o apoio ainda é pouco, já que lutamos contra forças políticas, as quais imaginamos que não existam mais em um país que se pretende uma potência internacional, como no caso do Brasil. Aliás, faço aqui um apelo a imprensa, organizações não governamentais, centros acadêmicos, institutos, faculdades, sociedade civil organizada, DCEs e instituições cientificas: por favor, nos ajudem. Suas moções de apoio, seus emails, sua solidariedade tem sido realmente muito importante para nós e muitas vezes a garantia de segurança.
PP: O que podem fazer pessoas e organizações que, estando longe de Rondônia, estejam dispostas a ajudar e prestar solidariedade à greve?
EF: De tudo, desde simplesmente entrar no blog do comando de greve e se informar sobre o que tem ocorrido até enviar e-mails aos parlamentares, MEC, MPF, Casa Civil, Presidência… É preciso que as pessoas saibam, aqui, que há gente lutando pelos valores que defendemos, fora daqui, que, afinal, tudo isso não tem sido em vão… Se quiserem nos enviar moções de apoio, postar no twitter ou no facebook, pressionar os órgãos de imprensa, toda a ajuda, mesmo individual, é mais que bem-vinda.
Leia Aqui artigo do Profº Estêvão sobre as ameaças de morte na UNIR
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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Contra a Criminalização dos 73 Estudantes da USP


ABAIXO-ASSINADO CONTRA A CRIMINALIZAÇÃO DOS 73 PRESOS POLITICOS DA USP

No dia 08/11, o governo do Estado de São Paulo e a Reitoria da USP  foram responsáveis pela prisão de 73 ativistas do movimento estudantil e sindical que protestavam pela retirada da Polícia Militar da USP, a anulação do convênio entre a USP e a Polícia Militar assinado em setembro de 2011 e o fim dos processos administrativos e judiciais contra ativistas do movimento estudantil  e sindical da universidade. Concordando-se, ou não, com o método de luta utilizado ou com o mérito da causa defendida, o fato é que o indiciamento dos manifestantes, ainda mais considerando a força policial totalmente desproporcional que foi utilizada, representa  uma forma de criminalização da política, uma repressão aos  movimentos sociais, um atentado à democracia e uma agressão aos Direitos Humanos, visto que a Declaração Universal, de 1948, garante a liberdade de opinião e de expressão (art. 19), preconizando que  cumpre ao Estado de Direito respeitar o exercício da ação política  de natureza reivindicatória, "para que o homem não seja compelido,  como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão".

Nós, abaixo-assinados, nos declaramos contrários à criminalização  dos 73 presos políticos da USP, que se insere no contexto do imoral  e desproporcional processo persecutório, totalmente contrário ao  interesse público, que se instaurou no seio da maior universidade pública da América Latina por obra do atual Reitor. Solicitamos a anulação destes inquéritos, bem como a retirada dos processos anteriores a estudantes e funcionários da USP.
Jorge Luiz Souto Maior - Professor da Faculdade de Direito da USP e Juiz do Trabalho
Luiz Renato Martins - Professor da Escola de Comunicação e Artes da USP

Caros/as
Envio o abaixo-assinado elaborado por membros do comando de greve da USP. É muito importante que colhamos o máximo de assinaturas possíveis, para impedir que os 73 presos políticos sejam punidos, e que se repitam cenas lamentáveis como a do último dia 08/11, quando a universidade amanheceu parecendo um território em guerra. O juiz e professor da São Francisco Jorge Luiz Souto Maior e o professor Luiz Renato Martins, da ECA já assinaram.
Peço a todos que confirmem a adesão, incluindo nome completo, e instituição, e enviem para simone.ishi@yahoo.com.br
Muito obrigada
Simone